O tempo passou e, na ânsia de entender aquele linguajar científico, próprio de quando se é médico, muitas horas foram surrupiadas da noite. Venceu e se graduou em medicina, mas não se conformou em ser chamado de Doutor só por isso. Partiu para fazer o Doutorado no Instituto Manguinhos, no Rio de Janeiro, o mais famoso e respeitado centro de pesquisas e formação de especialistas de todo esse imenso Brasil. E de lá saiu um DOUTOR, com letras maiúsculas, especializado em Análises Clínicas. Acontece que o sentimento de gratidão para com o Recife, a cidade que o acolheu tão bem, fez com que ele voltasse à capital pernambucana, para defender a sua “These de Doutoramento” junto à Faculdade de Medicina do Recife. E o título da “These” – como se escrevia na linguagem da época – foi: = “Erythrosedimentação nas infecções agudas”. Não era pouca coisa não. Se o título já impressionava, imagine no descritivo que ocupava 85 páginas, nessa linguajem científica de 1936. E vejam só como ele dissertava: “A palavra Erythrosedimentação, hibridismo greco-latino, é a expressão proposta e usada por grande número de autores, para designar o phenomeno que se observa quando, fora dos vasos, o sangue impedia a sua coagulação e deixava livre os seus erythrocytos que acabavam tombando”. Tese aprovada, diploma de Doutor embaixo do braço, lá se foi o Zé para o dia-a-dia do seu laboratório, instalado na Avenida Guararapes, aquela mais famosa do Recife. Entusiasta da vida, não perdia oportunidade de orientar e incentivar os bons costumes. E esse incentivo o Zé estendia a todos, pois gostava de repetir: “Um homem não deve pensar o que não pode dizer, nem dizer o que não pode escrever”. Era um filósofo de final de semana. Mas, cadê aqueles dois endereços citados na Postagem (1) e que seriam a própria vida do Zé? Eles estavam na citada Avenida Guararapes, em lados opostos: Um era o seu Laboratório de Análises Clínicas e o outro o Bar Savoy, um dos mais tradicionais do Recife. Nas mesas da boemia, o Zé, após todo um dia de dedicação ao trabalho, bebericava a sua cervejinha; jogando conversa fora; fazendo amigos e rindo dos causos contados. Naqueles tempos, só homens frequentavam o Savoy, pois qualquer mulher que por lá aportasse era logo vista como “da vida”. E por falar em “da vida”, uma das historinhas engraçadas que divertia o Zé, era a do marinheiro novato na cidade que depois de encher a cara numa mesa do Savoy, perguntou: Amigos, onde fica a Zona aqui em Recife? Seguinte moço: volta para aquele lado, do Cais do Porto, de onde você veio, e procura a Rua da Guia, a do Bom Jesus ou a Madre de Deus…E o marinheiro, espantado: “Ô amigo, eu perguntei pela Zona e não pelo caminho do céu”… Na verdade, por uma infeliz coincidência, ou fatalidade, a Zona do baixo meretrício, como se chamava à época, ficava exatamente nesse conjunto de ruas do Recife. Bem, o importante é que a vida boêmia, daqueles saudosos tempos, podia se estender até tarde e se podia ir embora sem medo de assaltos, de balas perdidas ou dos cheira-cola. Podia-se ficar no ponto de ônibus até chegar o “Bacurau” (Aves de hábitos noturnos…), – como eram chamados os ônibus – sem nenhuma preocupação. Mas, que não se pense que o Zé Ferreira, amante dessa boemia, não era rigoroso nos seus exames clínicos. Tanto que certa vez, quando lhe perguntaram por que levava os resultados dos exames para datilografar em casa, ao invés de contratar uma datilógrafa, respondeu: “Porque o trabalho seria dobrado. Teria que conferir e, sem desmerecer ninguém, para ela tanto faz 2,5 como 25. E para o meu cliente? De outra vez, disse em lamento no final da tarde: “O exame mais chato é o que dá negativo, pois tenho que repetir até assegurar-me que é negativo mesmo. Quando é positivo, está resolvido de primeira. ”. – Ria e arrematava: “Mas, adora entregar os negativos”. Ficarei por aqui, mas certamente não esgotei esse assunto e voltarei a descreve-lo na próxima postagem….