AS PERIPÉCIAS DO ZÉ FERREIRA (1)

O Zé era um sujeito franzino que um dia resolveu quebrar as próprias amarras e atravessar as muralhas da sua Fortaleza, a capital cearense, e se mandar pelo mundo afora. Decidiu que venceria sozinho, ou nada feito. Juntou uns trocados, mais 2 valises com roupas bem escolhidas e traçou seu destino: > Recife, a capital pernambucana, pois lá, ouvira dizer, tinha a melhor e mais tradicional Faculdade de Medicina do país, com quase 100 anos de atividades. Desprovido do medo do desconhecido, o Zé, um viajante de dezesseis anos, ia observando o penar daquelas pessoas carentes de recursos e sem oportunidades, todas passageiras do mesmo ônibus e semelhantes em seus sonhos e apreensões. E foi ali mesmo, durante a longa e cansativa viagem que esse sentimento de respeito para com todos foi se insinuando na cabeça do Zé, para nunca mais parar de crescer. Era um sentimento simples, este de que somos todos iguais, sendo as diferenças meros acessórios impostos pelo destino de cada um. Só muito mais tarde o Zé entenderia que aquela atração pelo “ser igual” não era apenas devaneios de um jovem aventureiro, mas uma questão de caráter. As horas se passaram e depois de muito sacolejar, o ônibus do Zé chegou à Rodoviária de Santa Rita e ele ficou olhando para não sei onde, mas sabendo que chegaria lá. E o “lá” foi uma pensão simples na Rua Princesa Izabel, esquina com Rua da Aurora, onde um enorme rio tomava toda a sua nova janela, por onde ele passaria a ver boa parte da vida. Era o Capibaribe e para além o Zé via aquela enorme avenida, com os prédios também enormes, em nada se parecendo com a sua saudosa Várzea Alegre que ficara lá pelo interior do Ceará. Descobriria mais tarde que ela fora batizada de Guararapes em homenagem à batalha mais famosa dos pernambucanos contra os invasores holandeses. Porém, naquele momento, a realidade para o Zé era apenas aquela que a janela lhe apresentava, sem saber que lá ao longe na outra margem do rio, o futuro lhe reservava dois endereços que seriam pontos de referências por toda a sua vida profissional e cultural. Em seu primeiro dia no Recife, pensava apenas que fora bom demais ter encontrado uma vaga naquela pensão, um lugar asseado, ideal para um estudante-retirante sem muitas posses e que ainda dependia do pai para ter apenas o suficiente para comer e dormir. O melhor era que lá da pensão dava para ir a pé até a Faculdade de Medicina, onde ele já se sentia não apenas matriculado, mas um médico formado.  Determinação para isso ele tinha, restava saber se conseguiria o cobiçado diploma de Doutor. Naquela época não havia vestibular, porém as dificuldades para o Zé já começaram no dia da matrícula: A moça atendente: Nome? Ele: José Ferreira. A moça: De que? De que o que? É só isso mesmo. José Ferreira. E o senhor não tem mãe, ou pai? E a senhora acha que eu nasci, como? É só isso mesmo. Sei lá o que meu pai quis com isso. Ele apenas trocou o nome dele, Antônio, pelo meu José e ficou só isso mesmo: José Ferreira, futuramente, Doutor José Ferreira. Essa determinação foi uma permanente característica daquele cearense franzino, inteligente e com raciocínio tão rápido que às vezes atropelava o linguajar e criava palavras não aceitas pelos letrados. Exemplo disso foi quando na primeira semana de aula, um professor indagou à turma o que cada um pretendia da vida? E ele apressou-se a responder em nome de todos os colegas. ==> Apenasmente. Antes que ele concluísse, foi uma risada geral e daí para todo o sempre, seu apelido não poderia ser outro: Apenasmente. E o Zé passou a ser chamado assim em todas as ocasiões, durante o curso e após a formatura. Mas, pensam que ele se melindrava? Ria e seguia o seu caminho, pois era entusiasta do lema defendido pela “Seleções de Reader’s Digest” = Rir é o melhor remédio. Ficamos por aqui, mas na próxima postagem continuarei abordando as Peripécias do Zé.

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Um comentário sobre “AS PERIPÉCIAS DO ZÉ FERREIRA (1)

  1. Sou suspeito, mas o texto está excelente. Pena worldpress não permitir eu curtir. Esperando pela continuação. Mas, como sabemos, terás muitas histórias pra contar sobre este Zé.

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